Tendência

Fanfic é literatura?

Algumas pessoas vêem a fanfic como algo ruim. Mas para quem está nesse meio, não é bem assim.

Por Laura Okida e Madalena Derzi

Existe uma regra muito conhecida em fóruns na internet: “se alguma coisa existe, alguém já escreveu fanfics sobre ela”. Algumas pessoas podem achar isso bom, outras não, mas é incontestável que fanfics hoje fazem parte do mainstream. É impossível falar de cultura pop, cultura de fã, ou fandom, sem falar nelas.

Traduzindo para o português, fanfiction (também conhecidas como fanfics ou, simplesmente, fics) significa ficção de fã, ou seja, histórias escritas, publicadas e divulgadas por fãs, para outros fãs, que são baseadas em livros, séries, filmes, videogames, quadrinhos, entre outros produtos midiáticos. 

A prática é antiga, afinal fanfic é nada mais que intertextualidade e esse conceito existe desde sempre. Mas é possível identificar um primeiro boom de fanfics na década de 1970, entre os fãs da série de televisão “Jornada nas Estrelas”. Eles organizavam suas histórias e artes em fanzines, ou revistas de fãs, que eram enviadas pelo correio por meio de assinaturas (se você tiver sorte, pode achar uma dessas relíquias publicadas na internet). Mais tarde, nos anos 1990, com a popularização da internet, fazer com que essas histórias chegassem à outros fãs se tornou muito mais fácil.

Reescrever uma história do jeito que você quiser é a essência da fanfic. E é justamente isso que os ficwriters – aqueles que escrevem fanfic – fazem. Em geral, eles não visam o lucro, mas, sim, permitir que aqueles personagens que tanto gostam possam viver uma vida diferente, com outros resultados finais. Quando o fandom (comunidade de fãs) de “Jornada nas Estrelas” começou a ver (ou shippar) o Capitão Kirk e o Sr. Spock como um casal, eles usaram a sua paixão pela obra e a sua criatividade para escrever milhares de fanfics. E é por isso que essas produções ampliam o contato entre pessoas dentro de um fandom (comunidade de fãs), afinal, quem gosta de um mesmo casal, ou de um mesmo personagem, acaba se encontrando para dividir suas histórias. Para Dóris Maria, que escreveu um TCC sobre fanfics e é formada em Língua e Literatura Inglesa pela Universidade Federal do Espírito Santo, ler o que os outros fãs estão escrevendo mostra uma outra perspectiva, outra interpretação que você nunca teria sozinho.

Mas por serem produções feitas por fãs, a discussão sobre se elas devem ser levadas a sério ou não se estende por todos os cantos da internet. Mariana De Castro, conhecida principalmente como Nana Castro, do Fanficast, um podcast sobre fanfics, acredita que, assim como qualquer outro processo de escrita, a fanfiction também deve ser considerada um produto cultural legítimo. Isso porque, mesmo se inspirando em algum elemento que já existe, como por exemplo os personagens, os ficwriters “colocam seu esforço, sua imaginação, suas palavras naquele trabalho”. 

Mariana tem dificuldade de criar personagens às vezes, e aqueles já existem, tem uma essência própria. Ao escrever uma fanfiction, ela, assim como outros autores, apresenta a impressão que tem daquele personagem, tornando este, e a história, seus. “É um trabalho legítimo, tanto que algumas viraram filmes e livros”, ela lembra. Alguns exemplos são “Cinquenta Tons de Cinza”, “Orgulho e Preconceito e Zumbis” e “Instrumentos Mortais” (este último começou como uma fanfic de Harry Potter, embora a autora negue veemente).

A partir do momento em que um produto artístico envolve sua própria criatividade, e conexão com outra pessoa, sejam fãs ou personagens, aquilo se torna uma produção cultural legítima, afirma Isabella Atalla, escritora de fanfics desde 2013. Além disso, ao pensar na teoria de literatura, é importante perceber que a produção artística de leitura não acaba no momento em que o autor realiza a publicação, ela continua na leitura e na interpretação, e passa a ser de todos aqueles que a consomem, lembra Dóris. As pessoas tendem a pensar na obra como uma coisa fechada nela mesma, sendo que há todo um universo de mixagens e remixagens que nasce no momento em que ela é compartilhada com outras pessoas.

Ana Rosa Leme, formada em Letras e Mestra em Linguística pela UFSCAR, estuda essas produções de fãs e também é do Fanficast, concorda com Mariana e ainda adiciona que a fanfic é a manifestação de uma comunidade. “Nela, indivíduos se reúnem a favor de um único fim, a escrita desse estilo narrativo, a qual tem as suas próprias regras e características.” Só neste texto, por exemplo, já foram utilizados diversos termos criados e utilizados pelos fãs em suas comunidades.

Ana também menciona o fato de que algumas pessoas contestam a legitimidade das fanfics pois, assim como tudo que é considerado novo, essas histórias tendem a causar estranhamento nas pessoas. Mas a fanfic só é considerada um fenômeno novo devido à sua popularização recente na internet. 

Essa popularidade também está ligada à meninas adolescentes, o que é a origem de grande parte das críticas que as fanfics recebem. “Imagina-se que são pessoas que não sabem o que estão escrevendo, não é o autor da obra ou alguém renomado, são meninas no Twitter, no Tumblr”, disse Ana. O termo fanfic é, inclusive, utilizado de modo pejorativo. As últimas temporadas da série Game of Thrones, da HBO, foram criticadas por “se parecerem com uma fanfic”. É claro que existem fanfics boas e ruins, o princípio básico delas é que qualquer pessoa pode produzir uma. Essa é, afinal, a lógica da internet, você pode encontrar uma obra prima, ou a pior fanfic já escrita. Para Dóris, medir a qualidade dessas histórias é possível, mas em geral, existe trabalho na produção de fanfics, o que é o primeiro passo para fazer delas produções culturais legítimas.

Embora alguns autores abracem as produções que vêm dos fandoms, outros já não são tão receptíveis assim. O FanFiction.Net, um dos mais clássicos arquivos de fanfics, tem até uma lista com 10 autores que proíbem que sejam escritas fanfics de suas obras. George R.R. Martin é famoso por sempre se posicionar contra qualquer trabalho feito por fãs baseado em suas obras. Ele e muitos outros autores têm argumentos razoáveis contra as fanfics. “Esses autores ainda estão escrevendo, então existe a possibilidade de uma de suas histórias bater com uma fanfic e a pessoa querer cobrar”, disse Mariana. É uma forma de se proteger e evitar uma grande dor de cabeça.

Mas também existem aqueles que acreditam que a fanfic infringe leis de copyright. A escritora Anne Rice, autora das “Crônicas Vampirescas”, além de proibir fanfics baseadas em sua obra, também já chegou a processar vários fãs que usaram sua história e personagens para criar novas narrativas. Ações como essa levaram muitos ficwriters a escreverem um pequeno disclaimer em suas fics, atestando que não eram donos daquelas histórias e que elas não tinham fins lucrativos. 

O fandom das “Crônicas Vampirescas” até mesmo mudou toda a sua produção para arquivos secretos. Ana aponta que, mesmo que as pessoas achem formas alternativas de postar as suas fanfics, isso pode prejudicar o acesso do fã à essa comunidade, pois ela fica mais difícil de ser encontrada, mas a produção nunca para. “Por mais que as pessoas tentem controlar os fandoms, eles são incontroláveis”, completou Mariana.

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